O Maneirismo em português
por Ângela Veríssimo
Actualmente a questão é encarada doutra maneira,
e o período desde 1525 a 1600, entre o Renascimento Pleno
e o Barroco é visto como um tempo de crise generalizado
por toda a Europa, que originou várias tendências
antagónicas, mais do que um ideal predominante. Entre elas,
particularmente na pintura italiana, destaca-se o Proto-Barroco,
o Realismo e o Maneirismo que foi sem dúvida a mais discutida.
O próprio título é algo ambíguo e
no sentido original possuía uma carga pejorativa, advindo
do facto dos homens do Barroco acusarem os maneiristas de trabalharem
" à maneira " dos grandes mestres da geração
anterior, já referidos. Na verdade, muitos artistas fizeram-no,
tomando por base originais ou livros de gravuras dos artistas
já consagrados. Mas o que é facto é que se
houve quem fosse por essa via, a maior parte não foi.
Hoje entende-se o Maneirismo como derivado duma série
de factores que marcaram o contexto económico, religioso
e social do século XVI europeu: a partir de 1525 passa-se
a viver um clima de instabilidade (ao contrário da época
feliz do Renascimento) provocado por inquietações
económicas e religiosas; de facto a prata e ouro espanhóis
levam à subida dos preços e por outro lado está-se
em plena Reforma Protestante. Consequentemente, o nível
de encomendas eclesiásticas desce, uma vez que a Igreja
se encontra dividida: será legitimo o luxo e as imagens
nas igrejas? Ao mesmo tempo, é nesta época que o
artista toma consciência do seu valor tendo orgulho na sua
profissão e querendo diferenciar-se dos demais. Importa
referir que é neste período que aparecem as primeiras
Academias de Belas Artes onde a formação do artista
era teórica colocando-o ao nível do poeta, do filósofo
e libertando-o da condição de artífice. É
também nesta altura que uma burguesia cada vez mais rica
entra na cultura aumentando o nível das encomendas; as
obras maneiristas perdem o carácter utilitário das
obras da Idade Média (eram a Bíblia dos pobres)
para passarem a ser objectos de luxo.
O que distinguiu o Maneirismo dos restantes estilos e em particular
na pintura foi uma deliberada revolta dos artistas contra o equílibrio
clássico do Renascimento, explicando-se como uma atitude
de modernidade anticlássica e antiacadémica , criando
um estilo, nas palavras de H. W. Janson "perturbador, voluntarioso,
visionário que denuncia uma profunda ansiedade interior".
Assiste-se ao aparecimento das figuras alongadas, retorcidas,
em posições afectadas e teatrais, numa busca de
movimento nas composições às vezes desiquilibradas;
as cores usadas são exageradas sem correspondência
com as naturais; os enquadramentos são invulgares em que
a cena é vista de cima ou de lado e verifica-se uma certa
ambiguidade na perspectiva: por vezes aparecem mais do que um
ponto de fuga o que dificulta a leitura do quadro, já que
não se percebe o que é mais importante. Enfim, parece
ao observador que o pintor teve a intenção de o
impedir de avaliar o que está representado pelos padrões
da experiência comum.
Estas características começam a manifestar-se
em pintores florentinos como Rosso e Pontormo, que correspondem
à primeira geração do maneirismo italiano.
Segue-se-lhes a fase elegante de Parmigianino e Bronzino, um pouco
menos "tenebrosa" mas igualmente anti-renascentista.
Outros pintores de renome foram Tintoretto e El Greco, ambos saídos
da Escola Veneziana.
Em Portugal...
Enquanto que em Itália, se passou do Renascimento Pleno
ao Maneirismo e depois ao Barroco, em Portugal o Renascimento
chegou tarde, já que estivémos durante muito tempo
vinculados ao vocabulário Gótico de influência
flamenga. Por isso aquele não se desenvolveu como um estilo
autónomo, tendo as suas obras um carácter mais de
experimentação.
Pelo contrário, as soluções maneiristas
triunfam em Portugal, em vários domínios como na
arquitectura , na escultura , na literatura (Camões), na
música polifónica e na teoria estética pela
mão do polivalente Francisco de Holanda, que da sua estadia
em Itália entre 1538-40, traz experiência e documentos
dos mais avançados da actualidade artística de então,
introduzindo a arte e teorias maneiristas no nosso país.
No entanto, foi no âmbito da pintura que mais profundamente
se fizeram sentir os valores estéticos do novo estilo.
Autores como António Campelo, Diogo de Contreiras, Francisco
Venegas, Fernão Gomes, Gaspar Dias, Diogo Teixeira entre
outros, souberam assumir-se em termos duma modernidade possível,
alinhando pelos programas e soluções "italianizantes",
respondendo formalmente contra as estruturas normativas do Renascimento
Clássico mas duma forma mais discreta e austera que os
pintores florentinos e romanos, a qual estaria mais de acordo
com a nossa sociedade que aderira à Contra-Reforma; o Concílio
de Trento tinha sido em 1563 donde saíra uma Igreja mais
forte que nunca, com um espirito que proíbia os aspectos
heréticos ou impuros que permanecendo na obra de arte pudessem
sugerir " interpretações perigosamente erradas
junto daqueles menos eruditos ". É esta atitude de
rigidez e intolerância que explica que a pintura maneirista
portuguesa fosse mais comedida e restrita de soluções
que noutros centros europeus, onde tais entraves ideológicos
não existiam.
De qualquer modo, é de todo o interesse e da maior
importância conhecer a obra dos pintores atrás mencionados,
rebilitando a memória destes representantes da pintura
maneirista portuguesa, injustamenta deixados no esquecimento comum.
SERRÃO, Víctor: A Pintura Maneirista em Portugal
, Revista Artes & Leilões, n º 26, Janeiro
de 1995.
JANSON, H. W. : História da Arte , 4ª Edição,
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1989.
SERRÃO; Víctor: História da Arte em Portugal
- O Maneirismo , Volume 7, Publicações
Alfa, Lisboa, 1986.
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