O Maneirismo em português

por Ângela Veríssimo


Falar-se de Maneirismo é abordar um assunto que foi sempre objecto de polémica; até algumas décadas, entendia-se que ao Renascimento Pleno se tinha seguido o Renascimento Final, dominado por sucessores menos criativos dos grandes mestres da geração anterior - Miguel Ângelo, Rafael, Leonardo, Ticiano e outros - até ao aparecimento do Barroco no final do século XVI.

Actualmente a questão é encarada doutra maneira, e o período desde 1525 a 1600, entre o Renascimento Pleno e o Barroco é visto como um tempo de crise generalizado por toda a Europa, que originou várias tendências antagónicas, mais do que um ideal predominante. Entre elas, particularmente na pintura italiana, destaca-se o Proto-Barroco, o Realismo e o Maneirismo que foi sem dúvida a mais discutida. O próprio título é algo ambíguo e no sentido original possuía uma carga pejorativa, advindo do facto dos homens do Barroco acusarem os maneiristas de trabalharem " à maneira " dos grandes mestres da geração anterior, já referidos. Na verdade, muitos artistas fizeram-no, tomando por base originais ou livros de gravuras dos artistas já consagrados. Mas o que é facto é que se houve quem fosse por essa via, a maior parte não foi.

Hoje entende-se o Maneirismo como derivado duma série de factores que marcaram o contexto económico, religioso e social do século XVI europeu: a partir de 1525 passa-se a viver um clima de instabilidade (ao contrário da época feliz do Renascimento) provocado por inquietações económicas e religiosas; de facto a prata e ouro espanhóis levam à subida dos preços e por outro lado está-se em plena Reforma Protestante. Consequentemente, o nível de encomendas eclesiásticas desce, uma vez que a Igreja se encontra dividida: será legitimo o luxo e as imagens nas igrejas? Ao mesmo tempo, é nesta época que o artista toma consciência do seu valor tendo orgulho na sua profissão e querendo diferenciar-se dos demais. Importa referir que é neste período que aparecem as primeiras Academias de Belas Artes onde a formação do artista era teórica colocando-o ao nível do poeta, do filósofo e libertando-o da condição de artífice. É também nesta altura que uma burguesia cada vez mais rica entra na cultura aumentando o nível das encomendas; as obras maneiristas perdem o carácter utilitário das obras da Idade Média (eram a Bíblia dos pobres) para passarem a ser objectos de luxo.

O que distinguiu o Maneirismo dos restantes estilos e em particular na pintura foi uma deliberada revolta dos artistas contra o equílibrio clássico do Renascimento, explicando-se como uma atitude de modernidade anticlássica e antiacadémica , criando um estilo, nas palavras de H. W. Janson "perturbador, voluntarioso, visionário que denuncia uma profunda ansiedade interior". Assiste-se ao aparecimento das figuras alongadas, retorcidas, em posições afectadas e teatrais, numa busca de movimento nas composições às vezes desiquilibradas; as cores usadas são exageradas sem correspondência com as naturais; os enquadramentos são invulgares em que a cena é vista de cima ou de lado e verifica-se uma certa ambiguidade na perspectiva: por vezes aparecem mais do que um ponto de fuga o que dificulta a leitura do quadro, já que não se percebe o que é mais importante. Enfim, parece ao observador que o pintor teve a intenção de o impedir de avaliar o que está representado pelos padrões da experiência comum.

Estas características começam a manifestar-se em pintores florentinos como Rosso e Pontormo, que correspondem à primeira geração do maneirismo italiano. Segue-se-lhes a fase elegante de Parmigianino e Bronzino, um pouco menos "tenebrosa" mas igualmente anti-renascentista. Outros pintores de renome foram Tintoretto e El Greco, ambos saídos da Escola Veneziana.

Em Portugal...

Enquanto que em Itália, se passou do Renascimento Pleno ao Maneirismo e depois ao Barroco, em Portugal o Renascimento chegou tarde, já que estivémos durante muito tempo vinculados ao vocabulário Gótico de influência flamenga. Por isso aquele não se desenvolveu como um estilo autónomo, tendo as suas obras um carácter mais de experimentação.

Pelo contrário, as soluções maneiristas triunfam em Portugal, em vários domínios como na arquitectura , na escultura , na literatura (Camões), na música polifónica e na teoria estética pela mão do polivalente Francisco de Holanda, que da sua estadia em Itália entre 1538-40, traz experiência e documentos dos mais avançados da actualidade artística de então, introduzindo a arte e teorias maneiristas no nosso país.

No entanto, foi no âmbito da pintura que mais profundamente se fizeram sentir os valores estéticos do novo estilo. Autores como António Campelo, Diogo de Contreiras, Francisco Venegas, Fernão Gomes, Gaspar Dias, Diogo Teixeira entre outros, souberam assumir-se em termos duma modernidade possível, alinhando pelos programas e soluções "italianizantes", respondendo formalmente contra as estruturas normativas do Renascimento Clássico mas duma forma mais discreta e austera que os pintores florentinos e romanos, a qual estaria mais de acordo com a nossa sociedade que aderira à Contra-Reforma; o Concílio de Trento tinha sido em 1563 donde saíra uma Igreja mais forte que nunca, com um espirito que proíbia os aspectos heréticos ou impuros que permanecendo na obra de arte pudessem sugerir " interpretações perigosamente erradas junto daqueles menos eruditos ". É esta atitude de rigidez e intolerância que explica que a pintura maneirista portuguesa fosse mais comedida e restrita de soluções que noutros centros europeus, onde tais entraves ideológicos não existiam.

De qualquer modo, é de todo o interesse e da maior importância conhecer a obra dos pintores atrás mencionados, rebilitando a memória destes representantes da pintura maneirista portuguesa, injustamenta deixados no esquecimento comum.


Bibliografia:

SERRÃO, Víctor: A Pintura Maneirista em Portugal , Revista Artes & Leilões, n º 26, Janeiro de 1995.

JANSON, H. W. : História da Arte , 4ª Edição, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1989.

SERRÃO; Víctor: História da Arte em Portugal - O Maneirismo , Volume 7, Publicações Alfa, Lisboa, 1986.


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