A Basílica da Estrela
por Ângela Veríssimo
Fruto da necessidade do Homem de acreditar em algo que o transcenda,
de lhe dedicar a sua devoção, seja qual for o seu
"Deus", aquele ergue capelas, igrejas, catedrais, em
suma lugares de culto onde instintivamente sussuramos, onde homens
e mulheres meditam, onde matéria e espírito se misturam
dotando aqueles espaços dum misticismo arrebatador.
E se me é permitida uma opinião, acho que há
um inegável mistério associado a estes lugares pois
apesar de feitos pela mão do Homem me parecem extraordinariamente
seguros. Pode o Mundo acabar cá fora face à fúria
dos elementos, que o seu interior sempre auferirá duma
protecção maior, talvez porque foram construídos
em resposta a um chamamento maior, o chamamento da fé,
talvez porque muitos homens ali deixaram a sua inteligência,
o seu trabalho, e quantas vezes a própria vida.
A Basílica da Estrela nasceu da devoção
de D. Maria I ao culto do Sagrado Coração de Jesus.
Em 1760, aquando do seu casamento com o Infante D. Pedro, a ainda
princesa, fez um voto ao Santíssimo Coração,
de lhe erguer uma igreja e convento para as religiosas da Regra
de Santa Teresa, pedindo o nascimento de um filho varão.
D. Pedro contribuiu para a causa, cedendo os terrenos do Casal
da Estrela, na parte ocidental de Lisboa. No entanto, desde logo
se depararam uma série de obstáculos à devota
princesa, apenas ultrapassados aquando da sua subida ao trono:
dificuldades técnicas e económicas (estava em curso
a reconstrução dacapital após o terramoto
de 1755, para a qual o Marquês de Pombal havia disponibilizado
todos os meios), bem como teológicas, já que o culto
ao Sagrado Coração além de polémico
não era aceite pela ortodoxia católica, porque "revalorizava
a natureza humana de Cristo sobre a divina" o que implicava
uma mudança quase radical na mentalidade e modo de encarar
os dogmas da Igreja da época. De facto, só o papa
Pio VI, no final do século XVIII, o aprovará.
A obra é confiada a Mateus Vicente de Oliveira, arquitecto
da Casa do Infantado que tinha participado em obras de vulto,
nomeadamente no Palácio de Queluz. Entre 1778-79 realiza
dois projectos de estilo Barroco, que atingira o desenvolvimento
pleno em Portugal no reinado de D. João V, avô de
D. Maria I. Tratava-se duma basílica de planta maneirista
em cruz latina, onde no transepto existia uma cúpula que
iluminava a parte central do espaço, deixando o restante
na penumbra e que tinha uma nave única em vez das três
habituais. A fachada tinha dois pisos, com o corpo central de
três tramos saliente, onde foi usado o jogo entre pilastras
e colunas para a divisão dos mesmos (empregou-se a ordem
jónica, feminina, própria para conventos de freiras),
sendo ladeada por duas torres sineiras e encimada por um frontão
ondulado denunciando a influência do arquitecto italiano
Borromini. Elementos típicos do vocabulário barroco
são também as estátuas da oficina de Machado
de Castro, que adornam a fachada e a imponente escadaria que projectando-se
sobre o seu exterior, "promove o diálogo entre o edíficio
e a cidade". Esta monumentalidade e efeito cénico
próprios dos edíficios do Barroco, eram usadas para
cativar os fiéis, prolongando todo o espectáculo
para fora.
A partir de 1786, o arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos
é encarregado de terminar a basílica, elaborando
um terceiro projecto, aquele que foi seguido, onde introduziu
algumas alterações -segundo a tradição-
a causa da morte de Mateus Vicente. Substituiu o frontão
contracurvado por um triangular e adornou-o com uma profusão
de estátuas e fogaréus ondulados, ao mesmo tempo
que procedeu ao "alteamento da cúpula com zimbório
e lanternim" e enfeitou as torres sineiras de ornatos e
arrebiques, que apesar de tudo lhes conferiram uma certa elegância
rococó, linguagem estilística que se estava a adoptar.
Se há quem considere a Basílica da Estrela uma versão
reduzida da de Mafra (obra anterior da época joanina),
à intervenção de Reinaldo dos Santos se deve.
Quanto a mim, a questão não é tanto qual
o projecto de maior qualidade estética, mas antes o que
melhor se adequava a uma igreja e convento de carmelitas, que
na sua existência contemplativa prezam acima de tudo a pobreza
material e a simplicidade...
Quanto ao interior, este prima pela harmonia da traça,
pela nobreza dos materiais usados (pedra de lioz, mármores
brancos de Pero Pinheiro, azuis de Sintra, rosas de Negrais, amarelos
de Lousa e negros de Cascais) e pela qualidade da maior parte
das pinturas, que o tornam num espaço duma sobriedade que
prenuncia o Neoclássico.
A sagração da Basílica teve lugar em
Novembro de 1789, numa cerimónia de pompa e circunstância,
uma década após o lançamento da primeira
pedra, resultado da firme vontade de D. Maria I, enquanto que
o projecto de Pombal para a sua cidade iluminada se arrastaria
até final do século XVIII. Como diz Nuno Saldanha
no Livro de Lisboa, é uma obra sintomática de um
final, do Antigo Regime e do Barroco mas reflecte o início
de uma espiritualidade moderna. A Basílica foi a primeira
igreja do Mundo a receber o título de lugar de culto ao
Sagrado Coração sancionado por bula pontifícia,
culto esse que se propagaria ao longo dos séculos seguintes.
Bibliografia
BORGES, Nelson Correia, " História da Arte em
Portugal - Do Barroco ao Rococó ", Volume 9, Publicações
Alfa, 1986, Lisboa.
SALDANHA, Nuno, " O livro de Lisboa - A Basílica
da Estrela ", Capítulo VIII - Destaque I, Lisboa,
1994.
"Tesouros Artísticos de Portugal", Selecções
do Reader's Digest, Porto, 1980.
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