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COORDENAÇÃO: Filipe Xavier Catry e Francisco Castro Rego (CEABN InBIO).

EQUIPA CEABN: Ana Rafael, Clarine Rocha, Ernesto Deus, Filipe Xavier Catry, Francisco Moreira, Francisco Castro Rego, Inês Castanheira, Jéssica Caetano, Ricardo Silva e Pedro Xavier.

OUTRAS INSTITUIÇÕES: Câmara Municipal de Coruche - Observatório do Sobreiro e da Cortiça (CMC-OSC), Associação de Produtores Florestais do Concelho de Coruche e Limítrofes (APFC), Centro de Estudos Florestais (CEF-ISA), Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV).

Conceção e delineamento experimental inicial: Filipe Catry e Francisco Rego (CEABN-ISA), Rodrigo Fernandes e Dionísio Mendes (CMC-OSC), Conceição Silva e Mariana Telles (APFC).

Apoio administrativo: Mariete Cardoso, Susana Cruz e Patrícia Moreira (CMC), Fernanda Ferreira (ADISA), Anabela Pereira e Filipa Albino (CEABN-ISA).

Trabalho de campo: Filipe Catry, Ricardo Silva, Ernesto Deus e Pedro Xavier (CEABN-ISA), Mariete Cardoso, Vanessa Inácio, Ana Poeiras, Nuno Cambaio e David Rosado (CMC-OSC), António Ramos e Sofia Ramos (APFC), Edmundo Sousa (INIAV), Manuela Branco (CEF-ISA).

Trabalho de gabinete e de laboratório: Ana Rafael, Ernesto Deus, Filipe Catry, Francisco Moreira, Inês Castanheira, Jéssica Caetano, Manuela Branco, Ricardo Silva e Pedro Xavier (CEABN/CEF-ISA), Edmundo Sousa (INIAV).

Este projecto resulta de um protocolo de colaboração entre o Centro de Ecologia Aplicada Prof. Baeta Neves - Instituto Superior de Agronomia (CEABN-ISA), a Câmara Municipal de Coruche - Observatório do Sobreiro e da Cortiça (CMC-OSC) e a Associação de Produtores Florestais do Concelho de Coruche e Limítrofes (APFC). O projecto conta ainda com a colaboração de investigadores do Centro de Estudos Florestais (CEF-ISA) e do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV).

Este projeto teve início em 2013 e tem por objetivo a melhoria do conhecimento sobre a ecologia do sobreiro (Quercus suber), mais concretamente sobre os efeitos do fogo e da gestão pós-fogo em povoamentos florestais desta espécie afetados por incêndios. Pretendemos conhecer melhor a resistência e resiliência do sobreiro ao fogo, e nomeadamente as relações entre o sucesso da recuperação pós-fogo e as práticas de gestão florestal (corte, desbastes, descortiçamento), ou ainda a presença de pragas e doenças (platipo, xileboro, cobrilha, carvão do entrecasco).

Resultados preliminares

Este estudo ainda se encontra a decorrer mas foi já elaborado um relatório preliminar que pode ser consultado [aqui] e que faz o ponto da situação sobre a situação dos sobreiros monitorizados durante o primeiro ano e meio após o fogo.

Os resultados preliminares mostram que o incêndio que ocorreu no dia 4 de julho de 2013 na Herdade dos Concelhos em Coruche, teve um forte impacte nos povoamentos de sobreiro existentes. No segundo outono após o incêndio cerca de 47% de todos os sobreiros queimados monitorizados não apresentavam sinal de vida (considerados mortos nesta fase). Embora possa ainda haver sobreiros que regenerem ou morram durante os próximos meses, não é de esperar que esta situação sofra grandes alterações a curto prazo. Das análises efetuadas conclui-se que os principais fatores que influenciaram significativamente a mortalidade dos sobreiros foram a espessura da cortiça, a altura de descortiçamento e a área basal total, verificando-se uma menor mortalidade em sobreiros com cortiça mais espessa, com menor altura de descortiçamento e localizados em áreas com menor área basal. Entre os 369 sobreiros queimados monitorizados, 44% apresentavam regeneração de toiça verde no segundo outono após o incêndio. A presença deste tipo de regeneração foi mais frequente em sobreiros com menor diâmetro e localizados em áreas com menor área basal total. Cerca de 62% destas árvores tinham entre 1 e 10 rebentos e 20% tinham mais de 20 rebentos. Os maiores rebentos de toiça tinham em média 178 cm de altura e 2,6 cm de diâmetro na base (atingindo no máximo 330 cm e 6,5 cm, respetivamente), e a maioria dos rebentos tinham em média 127 cm de altura e 1,3 cm de diâmetro. Até à data não se verificaram diferenças relevantes em termos de sobrevivência ou crescimento da regeneração de toiça entre os sobreiros queimados cortados e não cortados.

Entre os 285 sobreiros queimados que não foram cortados, cerca de 83% regeneraram de copa após o incêndio, mas no segundo outono apenas 21% (n=59) mantinham regeneração verde na copa (nos restantes a regeneração secou). A maior parte dos sobreiros que mantinham rebentos verdes na copa eram virgens (71%) e apresentavam regeneração homogénea ou intermédia nas pernadas principais. Os resultados obtidos mostram que a regeneração de copa e a sua persistência até ao segundo ano após o incêndio tem maior probabilidade de ocorrer em sobreiros com cortiça mais espessa e nos quais a carbonização pelo fogo foi menor.

Em geral, os sobreiros que recuperaram melhor dos efeitos do fogo, foram árvores não exploradas, com maior espessura de cortiça, com menor diâmetro e menor altura de descortiçamento, menos carbonizadas, e com menor área basal nas suas imediações. Algumas medidas que podem contribuir para aumentar a resistência e resiliência dos sobreiros explorados ao fogo são a redução da intensidade de exploração (nomeadamente através do aumento do ciclo de descortiçamento e/ou da redução da altura de descortiçamento, sempre que possível), e a redução da densidade de outras árvores (nomeadamente através da eliminação ou diminuição do número de pinheiros) nas proximidades dos sobreiros.

Os resultados obtidos mostram também que várias das principais pragas e doenças do sobreiro, estão bastante disseminadas na área de estudo. Principalmente o platipo, mas também o xileboro, têm sido considerados as principais pragas florestais capazes de atacar e matar sobreiros adultos (Sousa et al., 2007). Porém, não existia até agora informação sobre o comportamento destes insetos na seleção e colonização de hospedeiros em povoamentos de sobreiro queimados. Os dados recolhidos permitem concluir que a ocorrência de ataques foi significativamente superior em sobreiros com maior diâmetro, mais severamente afetados pelo fogo, mais próximos da área não ardida, com menor espessura de cortiça e com maior superfície de tronco com feridas de descortiçamento. No primeiro inverno após o incêndio foram detetados sinais da presença de platipos/xileboros em 35% dos 491 sobreiros monitorizados, não havendo porém sinais de ataque em sobreiros virgens ou não queimados. No segundo outono, registou-se um aumento dos ataques (cerca de 12% nos sobreiros queimados não cortados e 5% nos sobreiros não queimados). Apesar da presença de uma abundante população de platipos/xileboros na área de estudo, não foi possível até agora encontrar uma relação entre a sua presença e a mortalidade dos sobreiros estudados.

Relativamente a outros insetos perfuradores, foram detetados sinais da presença de cobrilha da cortiça em 32% dos sobreiros monitorizados e em 40% das árvores exploradas; o facto de esta percentagem ter sido bastante superior nos sobreiros explorados não queimados (65%), onde a sua deteção é mais fácil, sugere que a percentagem global deverá estar subestimada. Relativamente a fungos verificou-se que 66% dos sobreiros monitorizados tinham carvão do entrecasco; também neste caso, o facto de esta percentagem ter sido bastante superior nos sobreiros queimados (85%), onde a sua deteção é mais fácil, sugere que a percentagem global deverá estar subestimada. Tal como para os platipos/xileboros, não foi encontrada qualquer relação entre a presença destes agentes (cobrilha da cortiça ou carvão do entrecasco) e a mortalidade dos sobreiros.

Algumas medidas que podem contribuir para diminuir os ataques de platipos/xileboros nos sobreiros queimados são a redução da severidade do fogo (nomeadamente através da diminuição da área basal de pinheiros, que está bastante correlacionada com a severidade do fogo), a redução da intensidade de exploração (através do aumento do ciclo de descortiçamento e/ou redução da altura de descortiçamento), e um maior cuidado durante as operações de gestão florestal, de modo a reduzir a presença de feridas no tronco (nomeadamente as feridas de descortiçamento). Após um incêndio, a eventual colocação de armadilhas para captura destes insetos, deverá ser feita prioritariamente na zona de interface entre a área ardida e não ardida. Em caso de corte de sobreiros queimados (cuja recuperação esteja comprometida), outras medidas que deverão contribuir para reduzir os ataques são o corte rente ao solo e a cobertura dos cepos com terra.