.   .   .  T a p a d a   d a   A j u d a  .    .    .   


 e s t r u t u r a    g l o b a l    d a    t a p a d a   d a   a j u d a    


 

     

 

 . "Genius Loci" . O Espírito do Lugar .

 

“Passou o portão do Monsanto da Tapada da Ajuda, com destino ao Instituto Superior de Agronomia. Surpreendia-se, de cada vez que ali ia, com a beleza do sítio, a fazê-lo sentir-se de modo diferente consoante a época do ano; como de cada vez o espantava “deixar” de repente Lisboa e ali mesmo, em Lisboa, ver-se nessa bela paisagem rural como se uma máquina do tempo, e de espaço, o houvesse transportado...” .

Citado in “O Jardim da Plantas” de 1994, romance do Prof. Cat. Luís S. Campos.Retirado de http://isa.utl.pt/campus/4_rasnei.htm

 

As capacidades de orientação e identificação, fornecidas por um espaço estruturado, isto é, com uma organização funcional coerente, constituem parte da noção de “Genius Loci” ou o espírito do lugar.

Reconhece-se na Tapada da Ajuda aquilo que Norberg-Schulz denomina de Lugar, ou seja um “espaço dotado de um carácter que o distingue.” O carácter singular da Tapada da Ajuda deve-se em parte à sua legibilidade, isto é “à facilidade com a qual as partes podem ser recohecidas e organizadas numa estrutura coerente”.

A orientação dentro do espaço, que é a Tapada da Ajuda, é adquirida através das diferenças de texturas e de cor, resultantes da multiplicidade de usos existentes de uma forma organizada. A presença de elementos inertes (edifícios imponentes) em contraste com a envolvente vegetal, inserida numa rede de compartimentação conseguida através de percursos ou de sebes, funciona como elementos de referência, facilitando a sua identificação.

 Porém, a falta de uma hierarquização de percursos e a ausência de sinalização conduz os utilizadores menos frequentes a uma eventual perda de orientação, principalmente em situações mais isoladas (como por exemplo, o lado Norte e Este da Tapada, onde se encontra a Terra da Eira Velha, a Terra do Moinho).

É um espaço caracterizado por uma contínua sucessão de fases, onde, em cada curva, nos deparamos com um pormenor diferente. Esta situação, que de início nos remete para uma difícil leitura, é no entanto, alterada pelos elementos variados que permitem o seu reconhecimento com uma aparente clareza. Assim, uma imagem mental que um observador terá da Tapada será complexa, mas no entanto, coerente (cheia de pontos de referência) onde é possível identificar a sua estrutura.

Por outro lado, a sua situação topográfica, dominando a cidade e o rio, e alongando a perspectiva pelos morros da outra margem do Tejo, confere a este Lugar um certo sentido de poder, de controlar o meio envolvente. Por exemplo, quando nos encontramos no Miradouro, o principal aspecto do seu carácter pode ser identificado com a ideia de que “a eminência morfológica e topográfica foi sempre um lugar de predilecção, não somente pela impressão de se estar mais próximo do céu, mas também porque oferece a possibilidade de controlar o meio envolvente e dá a impressão de nos encontrarmos no centro.” (Norberg-Schulz cit in Pereira, 1995).

Depois de uma análise exaustiva do espaço e da paisagem envolvente, foi possível perceber que todas as partes constituem o todo, ou seja, o Lugar. Assim, através das características físicas já analisadas (relevo, coberto vegetal, a Estrutura em si), foi possível verificar que este espaço aproxima o Homem urbano dos fenómenos naturais, que a dimensão e o artificialismo das actuais cidades afastaram. O abrigo, a sombra, a conveniência e um ambiente aprazível são as causas mais frequentes da apropriação deste espaço. O «espírito» deste Lugar é, por isso mesmo, a aproximação do Homem urbano em relação à Paisagem rural.

 

. . À Tapada da Ajuda pode ser atribuído o estatuto de paisagem rural . . 

 

Daí a importância destes conceitos para explicar a existência e manutenção de um espaço como a Tapada da Ajuda e as funções (ecológicas, lazer e recreio, educativa) que exerce, inserida na cidade de Lisboa, um grande centro urbano. Com o objectivo de constituir um espaço aberto na cidade, com carácter e identidade individualizada, é imprescindível preservar, recriar ou criar, enquanto elemento determinante na sua presença e continuidade cultural.

É um espaço único, cuja importância resulta da integração cidade/campo neste local. Um pequeno «mundo rural» dentro do caos urbanístico da cidade.

É um espaço resultante da influência do Homem sobre a Natureza, com objectivos diferentes ao longo dos tempos. Desde coutada de caça a parque botânico, o seu coberto vegetal tem sofrido algumas alterações, onde o carácter agrícola sobressai, mas nem por isso deixa de ser o tão desejado espaço “natural” dentro da cidade, onde é possível ainda manter um contacto (sensorial e estético) com a Natureza.

Tal como caracteriza Barreto (1952) “a Tapada tem um papel de enorme relevo na protecção da nossa flora e fauna primitiva, de tal forma que a ela se devem, pelo que toca a Lisboa, as poucas parcelas onde o lisboeta encontrará na verdade a paisagem natural”.

 

Outro aspecto importante, que revela o carácter deste espaço, é a dimensão temporal. As percepções adquiridas, isto é, a aparência e o significado que um observador retira da Tapada da Ajuda varia consoante a hora do dia e mesmo a altura do ano em que a observa. Essas alterações verificam-se devido à variação da luminosidade (contraste luz/sombra), onde a importância da sombra na legibilidade do espaço é muito maior na Primavera/Verão e durante a tarde e devido ao ritmo anual da vegetação.

    

É possível, por isso, ser-se testemunha de magníficos pôr-de-sol, da alternância das estações do ano, da existência de inúmeros animais e plantas no seu habitat normal, de sombras refrescantes no Verão, de ar puro, de fenómenos e equilíbrios físicos e biológicos; aspectos simples e banais, se não estivéssemos a falar de um espaço “rural” integrado numa cidade histórica, onde a maioria da população nasceu num aglomerado urbano ou foi viver para ali.

 

Sendo uma Tapada, e um Parque Botânico, nome pela qual já é designada, a vegetação tem aqui uma enorme importância. Por outro lado, trata-se de um “laboratório” permanente de ensaios de culturas. Assim, a grande parte da vegetação local caracterizada por “formações sempre verdes, de folhas coriáceas e coníferas” (Pereira, 1995), estão em constante alternância com os espaços abertos dos campos semeados, as cores garridas das hortas, as sebes de compartimentação, as árvores de enquadramento que, pela sua floração abundante na Primavera (cor púrpura da Olaia (Cercis siliquastrum), cor violeta do Jacarandá (Jacarandá mimosifolia), ou pelo aspecto lustroso das folhas jovens (Pimenteira bastarda (Schinus molle), Ameixoeira de Jardim (Prunus cerasifera var. pissardi), traduzem no espaço o efeito do tempo.

Este Lugar tem, por isso, todas as condições para a perfeita contemplação da Natureza, e o que é mais importante, para o seu estudo.


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Tapada da Ajuda . Instituto Superior de Agronomia .

   

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